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Autocuidado feminino

12.03.2018

 

Autocuidado é um tema que está bem em alta no meio feminista, mas esse debate não é novidade. Desde a Grécia antiga o cuidar de si vem sido tratado e sendo relacionado com assuntos como ética, liberdade, filosofia, conhecimento. Quando eu era mais nova, autocuidado era um tema não tão evidente e toda vez que se falava de autocuidado feminino havia sempre uma relação com a estética e o padrão de beleza vigente. Cuidar de si mesma tinha muito a ver com produtos estéticos, dietas, aparência, depilação, esmalte, escovar o cabelo, limpeza, enfim... coisas que no fundo pareciam ter mais a função de colaborar com uma indústria capitalista e patriarcal, com pressão estética e com a padronização feminina do que tudo. Era uma verdadeira armadilha e as mulheres que não entravam nesse ciclo de cuidados eram e ainda são facilmente taxadas de 'mal cuidadas', o que acabava por relacionar autocuidado com aparência. Mas não é bem assim. O autocuidado feminino é muito mais do que isso e acho que é impossível falar de autocuidado sem falar de autoconhecimento.  

Ilustração lindinha por: Samuel Marcelino |Portfólio|Instagram|

 

Como já disse aí em cima, a mulher cuidar de si mesma está muito atrelado a estética e ao padrão feminino imposto, mas pelo contrário, o cuidar de si enquanto mulher se relaciona diretamente com o conhecimento que temos de nós mesmas. Nascidas e criadas sobre uma ideologia muito opressiva, fica difícil e confuso sabermos o que faz bem pra gente. A mídia, a família, o sistema político e social, todo mundo, tem algo a dizer sobre como a mulher deve cuidar da própria saúde, do próprio corpo e da relação que desenvolve consigo mesma. Quer um exemplo bem fácil? Depilação. Aprendemos que a mulher DEVE depilar e que pêlos não são apenas feios, mas são nojentos, fazem mal a saúde e são relacionado com sujeira. Mas todo mundo sabe que depilar dói e muito, o processo pode irritar a pele, causar alergia, os pêlos ao crescerem podem encravar. Além disso, já temos conhecimento de que pêlos estão aí a nosso favor e fazem muito bem pra saúde, principalmente a vaginal. Então como vamos saber se depilar é autocuidado ou não, se faz bem ou não pra saúde? Aprendemos a vida toda de um jeito e quando não seguimos esses ensinamentos parece que não estamos cuidado da gente da maneira correta. E aí vai um monte de exemplo: pintar do cabelo, usar cremes anti-idade, fazer tratamentos agressivos anti-celulite, dietas loucas pra nos mantermos magras, enfim... Várias rituais estéticos doloridos, caros e demorados que são diariamente confundidos com autocuidado. E não vejo outra resposta pra lidar com essa questão além do autoconhecimento.

 

Mas antes de falar sobre o autoconhecimento em si, acho importante falar que acredito muito que o primeiro passo para o autoconhecimento seja reconhecer toda ideologia que envolve a construção de uma mulher. Reconhecer o que nos oprime e entender o que aprendemos desde muito cedo sobre ser mulher vem de uma trama ideológica muito bem desenvolvida pra nos mantermos na posição que estamos, não questionando a estrutura política, social e econômica que nos cerca. Sabendo disso e entendendo as influências sobre a nossas formações e os nossos gostos (sim, não é coincidência que mulheres 'gostam' de rosa, né? os nossos gostos também são socialmente construídos), fica muito mais fácil começar compreender quem somos e a desenvolver o autoconhecimento e o autocuidado.

 

Dito isso, acredito que o autoconhecimento é quando nos conhecemos enquanto mulheres e enquanto pessoas, é quando passamos a olhar mais pra dentro do que pra fora e passamos a reconhecer nossos padrões, nosso corpo, nossos ciclos, nossos sentimentos, nossos desejos e os acolhemos com carinho, compreensão e com mente aberta. Quando nos conhecemos, sabemos o que precisamos e ficamos afinadas com nosso ser e nosso corpo, aprendemos a nos diferenciar do mundo e do que nos é imposto, tomando consciência do que somos e a partir disso ficamos mais fortalecidas e capacitadas para agirmos em prol de nós mesmas. Para assim, finalmente, conseguirmos exercer algum autocuidado que seja genuíno e afinado com nossas necessidades. 

 

Por isso, não existe regras ou receita do que é autocuidado. Ninguém pode dizer o que você deve ou não fazer por você mesma. Só você e seu conhecimento de suas reais necessidades pode dizer isso. Cuidar de si seria, seguindo essa lógica, dar uma nova direção ao nossos olhar. Seria mudar o nosso foco permitindo que vejamos verdadeiramente a nós mesmas. É a gente agindo por nós mesmas, nos apropriando e ocupando realmente o nosso corpo, nos mobilizando e nos transformando em prol nós mesmas, conscientes daquilo que nos é imposto pelo mundo para não permitir que essas imposições comandem nossas ações e a maneira como nos vemos. E fazer esse movimento por você já é, por si só, uma maneira de se cuidar e de se libertar das imposições a que somos expostas. O caminho para o autoconhecimento e o autocuidado é libertador e só de começarmos a nos voltar pra dentro, já conseguimos mudar muitas coisas, melhorando muito a forma como nos vemos, nos tratamos e permitindo que nos livremos aos poucos das exigências e amarras sociais. O que possibilita um caminho real para o empoderamento e o amor próprio. Busque se ouvir, se respeitar, seguir suas próprias vontades! Conheça seu corpo, seus desejos, seus gostos, suas necessidades, aproprie-se dos seus ciclos, dos seus humores, do fluxo dos seus pensamentos e veja como é agir diante disso! Se conheça, se ame e se cuide. 

 

*Esse texto teve como referência: 'Ditos e escritos V – ética, sexualidade, política' e 'A hermenêutica do sujeito' , ambas de Michel Foucault

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